segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Campinas quer sediar a transferência de tecnologia do TAV

Para o secretário de Transportes, Gerson Bittencourt, a cidade já está adiantada na busca de iniciativas e aperfeiçoamentos para que isso se torne concreto


Anderson Botan
Campinas

O prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT) quer que Campinas esteja apta para ser escolhida pelo governo federal como a sede dos investimentos que serão feitos no país com a transferência de tecnologia, prevista no edital de concessão do Trem de Alta Velocidade (TAV). O representante do prefeito na audiência pública ocorrida sexta-feira, secretário de Transportes Gerson Bittencourt, confirma a informação e diz que a cidade já está adiantada na busca de iniciativas e aperfeiçoamentos para que isso se torne concreto. “Queremos que a Região Metropolitana de Campinas absorva, por meio de suas empresas, instituições de ensino e pesquisa, esta transferência tecnológica do TAV. Mesmo ainda não tendo nada definido, obviamente o prefeito tem buscado todas as alternativas e iniciativas para que isso ocorra”, garante o secretário.

Bittencourt disse que o governo federal já tem sinalizado que isso deve acontecer e que a região é a mais capacitada para receber estas tecnologias, por ter mão de obra capacitada, um pólo de tecnologia e desenvolvimento para atrair indústrias e instituições de ensino e pesquisa para desenvolvimento e capacitação de trabalhadores. “Campinas tem um histórico na região, no estado e até mesmo no país de um entroncamento ferroviário, que fez a cidade se desenvolver e possibilitar também o desenvolvimento das malhas ferroviária e a interligação com a malha rodoviária posteriormente. Então neste processo buscamos ter a cidade de Campinas como um pólo de atração, desenvolvimento e apropriação de tecnologia. Percebemos na apresentação que a cidade deve receber um pátio de manutenção, o que gera emprego, renda e demanda de profissionais qualificados para fazer as manutenções necessárias e Campinas tem condições de sediar toda essa infraestrutura”, considera o secretário.

Um indício de que Campinas pode ser escolhida é o próprio pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que a cidade procurasse desenvolver um sistema com grande capacidade para o transporte público. “Quando o presidente pediu ao prefeito fazer um projeto de veículo de mega capacidade de transporte público e optamos pelo VLP, naquele momento já foi discutido entre o prefeito e o presidente que isso seria um elemento importante de apropriação e transferência de tecnologia para a cidade. Por isso Campinas e região vão ter toda condição, por sua logística e empresas e instituições instaladas, de receber a transferência de tecnologia, o que seria extraordinário para o desenvolvimento da RMC”, disse Bittencourt.

O diretor técnico do Conselho de Infraestrutura e Logística do Ciesp, Josmar Cappa, também considera que a transferência de tecnologia vai se concentrar em Campinas, mas ele diz que as empresas vão procurar se instalar também em outras cidades onde haverá estações e isso dependerá de cada região. Mas para Cappa, Campinas e São José dos Campos, por serem dois pólos de alta tecnologia, devem concentrar os investimentos. “A ligação de Campinas e São José dos Campos é importante por ser muito produtiva. Com a transferência de tecnologia, nós vamos ter empresas trabalhando na manutenção, peças, maquinário, enfim, uma infinidade de atividades do TAV. E estas empresas vão se instalar naturalmente próxima das cidades que tem estações, o que é uma forma de ela acessar o trem, estar onde o trem vai parar. As prefeituras devem se planejar para receber estas empresas, atrair estas atividades, para que elas não entrem nas cidades sem nenhum recurso ou atrativo”, considera o diretor.

Desenvolvimento regional

Na audiência pública, os estudos apresentados mostram que o estado de São Paulo deve concentrar o maior fluxo de passageiros transportados pelo TAV, principalmente na linha regional chamada de Curta Duração, que vai ligar Campinas até o Vale do Paraíba, cujos estudos apontam para uma estação em São José dos Campos. Para Josmar Cappa, é importante que estas cidades estejam preparadas para o impacto que o TAV vai causar quando for construído, que vai desde aspectos urbanísticos até os econômicos, financeiros e estruturais. “O desenvolvimento regional não deve ser encarado somente como a geração de empregos, isso vai além, o desenvolvimento regional, no caso do TAV, tem que ser analisado durante todo o sistema, não só na implantação como também na operacionalização, porque você pode requalificar as áreas urbanas que vão receber o TAV, na maioria abandonadas, que podem ser utilizadas para comércios, novos serviços, dando opções para estes locais”, afirma Cappa.

Para o diretor, nas cidades que não terão estação de trem, podem ser feito ramais alternativos de menor velocidade que chegam até a linha principal do TAV ou mesmo criar vias exclusivas para ônibus, ou corredores, para acessar a estação em Campinas, para que o novo sistema não segregue e isole as demais cidades que não terão estações. “Se isso não for feito o TAV vai excluir estas cidades, mesmo as que estão no traçado, por ser uma via rápida e sem acesso. Ou seja, todo o interior, se quiser acessar, vai ter que chegar até Campinas, o que cria um problema para a cidade, que vai ter que se desenvolver, junto com as demais cidades, para ter acesso e não ficarem isoladas, já que este meio de transporte é por natureza segregador”, disse o diretor do Ciesp.

Audiência

Na audiência pública, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) apresentou de forma resumida os estudos de viabilidade do projeto, as minutas do edital de licitação e do contrato de concessão. Os presentes também puderam apresentar suas contribuições para o projeto, também disponível no site da ANTT até o dia 29 deste mês e fazer questionamentos sobre os temas abordados. Para Bittencourt, a audiência é um instrumento importante para que toda sociedade que participa possa contemplar a apresentação dos dados e debater, sugerir alterações e fazer críticas. “É importante ver que Campinas está inserida no contexto do TAV, é estratégica para a viabilização do projeto, já que os números apresentados sobre os deslocamentos entre as cidades mostram que tirando Campinas o projeto seria inviável, já que a demanda aqui é grande. Combinado com a expansão de Viracopos, que passa a receber voos internacionais, como Lisboa, porta de entrada da Europa, isso traz uma dinâmica nova ao aeroporto, para o desenvolvimento do TAV e para a cidade de Campinas e RMC, e vamos trabalhar para que o projeto seja implementado o mais rápido possível”, disse.

Para Bittencourt, caso as obras enfrentem alguns problemas, como questões ambientais de grande envergadura, que devem se concentrar na chegada ao Rio de Janeiro, seria interessante que caso uma primeira fase, entre Campinas e São José dos Campos ficasse pronta, por ter menos impactos ambientais, entrar em funcionamento para já preparar as cidades ao funcionamento total do TAV. “Nesta linha chamada de Curta Distância, o impacto ambiental deve ser menor, de acordo com os levantamentos feitos no estudo e se ficar pronto antes, poderia entrar em operação antes da conclusão total”, finaliza.

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